Estudantes iniciam visitas guiadas em Queimado com técnicos do Iphan

Eles foram conhecer o local da maior revolta de escravizados do Espírito Santo

Estudantes iniciam visitas guiadas em Queimado com técnicos do Iphan


Texto: Marcelo Pereira - Foto: Edson Reis e Marcelo Pereira

Estudantes do oitavo ano da Emef Herbert de Souza, em Jardim da Serra, tiveram na manhã desta segunda (13) uma aula sobre a Insurreição do Queimado no próprio lugar onde se iniciou a maior revolta de escravizados do Espírito Santo em 1849.  

Eles deram início ao cronograma de visitas escolares da rede municipal da Serra com os técnicos do do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Até o final deste mês, cerca de 200 alunos de seis escolas irão ao local. O projeto é parceria do Iphan com a Secretaria de Educação da Serra (Sedu) por meio da Coordenação de Estudos Étnicos-Raciais (CEER).

A garotada ficou por dentro do processo de criação da igreja de São José, onde atualmente só restam ruínas. O historiador do Iphan, Filipe Oliveira, detalhou as características do templo, do material utilizado e de como o edifício religioso foi erigido. À medida que explicava sobre as características da igreja, ele também informava sobre como era a vida em Queimado naquele período.

“A igreja levou quatro anos, de 1845 a 1849, para ser concluída e à custa de muito trabalho dos escravizados na época”, reforçou, informando que as pedras utilizadas eram carregadas morro acima, já que São José do Queimado fica no alto de um platô.

“O que a gente fez hoje aqui na verdade é o que esperamos fazer como um programa e tornar algo permanente. Essas ações de visitas guiadas a essas escolas no sítio histórico de São José do Queimado se integram dentro de um rol de iniciativas que o Iphan vem desenvolvendo para visibilizar Queimado e, talvez, subsidiar o processo de tombamento a nível federal dessas ruínas e desse sítio como um todo”, acrescentou.

Outro ponto que despertou interesse foi o que restou do cemitério da localidade, hoje desativado.

O arqueólogo Igor Erler revelou aos visitantes que o sítio histórico também é de interesse arqueológico por guardar resquícios da presença de povos indígenas. Ele esclareceu como a Arqueologia pode ser útil para desvendar o passado a partir de vestígios de ocupação humana.

“O sítio arqueológico de Queimado é um dos maiores existentes no Espírito Santo. Ele permite que compreendamos bem como era a vida em meados do século XIX e permite que consigamos ampliar a compreensão sobre como era a ocupação desse espaço e como eram feitos o comércio e a vida das pessoas nesse período”, destacou.

O estudante do oitavo ano Thalison Bastos, 13 anos, morador de São Marcos, gostou do que viu e passa a encarar  Queimado de uma nova maneira.

“É a primeira vez que venho aqui e fiquei surpreso, para começar, pelo tamanho do espaço porque a ideia, quando a gente vê pelas fotos e o que está nos livros, é que parece ser bem menor. Tivemos uma aula antes sobre a Insurreição de Queimado mas agora a gente entende melhor estando aqui onde tudo aconteceu”, diferencia.

O professor de Geografia Márcio Nascimento disse que a visita foi muito bem-vinda para fixação de conteúdo. “Também para significar, na prática, o que foi a Insurreição do Queimado. Aqui, nós temos ideia ao ver como é grande este templo do que aquelas pessoas escravizadas enfrentaram para construir essa igreja e não foram contempladas pela liberdade. A gente passa a entender melhor a revolta delas”, acrescentou.

Para a professora Nádia Serafim, assessora técnica da Coordenação de Estudos Étnicos-Raciais (CEER), a visita inaugural do projeto em pleno 13 de maio, dia da Abolição da Escravatura no Brasil em 1888, é uma forma dos estudantes compreenderem que a data e se conscientizarem sobre as lutas do povo negro por igualdade e direitos.

“A abolição da escravatura não foi um mero ato de boa vontade de uma governante. Essa lei foi o ápice do esgotamento do sistema escravista em nosso país, num processo de uma série de resistência e de revoltas a esse sistema feita pelo povo negro. Uma dessas revoltas é a de Queimado. É dentro desse contexto que é assinada a Lei Áurea. É muito mais uma conquista da população negra do que uma doação. E lembrar que a lei não fez uma justiça de reparação aos escravizados e seus descendentes. A libertação veio mas não houve garantias de direito para a população negra, que luta por oportunidades e igualdade até os dias de hoje”, argumenta.

Para Nádia, o trabalho da CEER levando os alunos para conhecer Queimado é mais uma estratégia de educação antirracista. “Nós trabalhamos enfatizando os patrimônios históricos, sobretudo os relacionados à cultura afro-brasileira e a resistência negra na Serra como é o caso de Queimado. Pensamos em aproximar os estudantes desse patrimônio com o olhar para o protagonismo negro e para todo o processo de conquista de direitos que temos hoje”, finaliza.

Os estudantes farão, após o passeio, trabalhos pedagógicos relacionados ao tema de Queimado. Outras visitas acontecerão nos dias 15, 24 e 29 de maio. Além da Emef Herbert de Souza, participarão também turmas do oitavo ano das Emefs Cascata e Divinópolis.