Alunos da EJA na Emef Belvedere montam robô hidráulico em aula de Geografia

Estratégia foi do professor Robson Alves ao trabalhar com a turma conteúdos ligados à tecnologia e cidades industriais

Alunos da EJA na Emef Belvedere montam robô hidráulico em aula de Geografia


Texto: Marcelo Pereira - Foto: Edson Reis e divulgação

Marinete Conceição, de 74 anos, trabalha na colheita de café, e, recentemente, tem experimentado a sensação de se sentir como se fosse uma engenheira.

Ela e outros 20 colegas da Educação de Jovens e Adultos (EJA) na Emef Belvedere, na zona rural do bairro Belvedere, montaram um robô hidráulico.

“Estou muito orgulhosa porque aprendi sobre tecnologia, sobre como o nosso mundo está mudando rapidamente com a presença dos robôs, colocando a mão na massa, fazendo algo prático”, explica, enquanto acompanha o movimento da peça.

A proeza foi incentivada pelo professor Robson Alves, 48 anos, que leciona Geografia. Ele propôs para a turma uma reflexão sobre desenvolvimento tecnológico e de como isto impactava a vida nas cidades modernas e na produção industrial.

“Ao invés de ficarmos só na explanação, reproduzindo o que está nos livros, o que é muito importante, apresentei esse desafio: e se a gente construísse um braço robótico com o que temos ao nosso alcance? O projeto começou no final do ano letivo de 2022 e todos se envolveram nessa construção com muito interesse”, detalha o professor.

O robô não é movido a energia elétrica. Ele é controlado por seringas que pressionam o líquido contido e essa pressão manipula o objeto fazendo um determinado movimento.

O braço se movimenta horizontal e verticalmente, além de abrir e fechar a garra que forma a “mão” do protótipo. Ele está numa base giratória, aliás, construída por Marinete.

Os componentes vieram de material reciclável: embalagem de pizza, peças de madeira inservíveis, parafusos e pregos. Somente as seringas foram compradas em loja de material hospitalar.

“É incrível como o engajamento dos alunos idosos foi forte. Eles se entregaram ao longo das 20 aulas que tivemos sobre o projeto. Recolheram material reciclável para a construção, montaram os componentes, fizeram o acabamento, ficaram maravilhados com o que são capazes de fazer", relata.

O aluno Geraldo Nunes, 63 anos, é homem do campo e se surpreendeu ao participar de uma equipe de construção de um robô. "Eu vi o quanto a gente tem que prestar atenção nos detalhes das peças. Eu lixei, cortei e adaptei e o resultado ficou muito bom. Estudei até a terceira série e esse tipo de aula incentiva a gente a não deixar de aprender. O professor anima a turma", elogiou.

O professor Alves segue os passos do renomado geógrafo Milton Santos (1926-2001), considerado o grande renovador da disciplina no meio intelectual brasileiro. Um de seus conceitos era a noção de que o espaço natural é rapidamente modificado pela efusão de novas tecnologias.

"Foi o que a gente trabalhou com esse robô: a transformação do trabalho braçal em tecnológico. Os alunos estão cientes que qualificação é necessária atualmente. Quem não souber manusear máquinas, vai ficar para trás em busca de emprego", resume.

O protótipo do robô será apresentado numa feira científica na escola, marcada para 18 de outubro.

Professor foi ex-aluno da EJA na Serra

O professor, assim como seus atuais alunos, já esteve na mesma situação deles: ele também chegou à idade adulta sem concluir os estudos.

Ele nasceu na cidade de Virgolândia (MG) e, na infância, seguiu com os pais para São Paulo. Estudou até a então sétima série do primeiro grau. Parou quando a família teve que se mudar para a zona rural mineira.

Em 1995, nova mudança da família, desta vez rumo Espírito Santo. Desde os 20 anos, Alves mora em Nova Carapina. Ele decidiu voltar a estudar e se matriculou na EJA oferecida na Emef Jonas Farias, em Nova Carapina I.

A paixão por conhecimento voltou com tudo em sua vida. Continuou estudando, concluiu o Ensino Médio. Fez o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), em 2012. "Das 90 questões, errei apenas cinco. Tirei 8,75 na redação. Acho que fui bem, não?", pergunta, de forma modesta.

Com a pontuação, foi aprovado, inicialmente, para um curso de História numa faculdade privada.

Ele iniciou a graduação mas obteve uma vaga na Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), onde foi estudar Geografia em 2013, se formando em licenciatura em 2018. O bacharelado saiu em 2019. 

Hoje, além de uma pós-graduação em Educação Ambiental concluída em 2022, leva sempre algo diferenciado em suas aulas para despertar o interesse em alunos adultos e idosos, que chegam, muitas vezes, exaustos de um dia de trabalho.

"A gente, como professor, tem que oferecer algo mais porque esse aluno não é somente para destinar conteúdo. Ele precisa ser envolvido", analisa.

 

 

  

 

 

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